Mais uma de nós, morta no centro cirúrgico

Em janeiro, uma influenciadora digital faleceu em decorrência de uma lipoaspiração, cirurgia que está banalizada ao extremo no mundo da internet, com a nova variante “lipo-lad”, que promete “desenhar o abdomen” no corpo de quem a faz. Blogueiras bastante próximas ao padrão de beleza (magras, brancas, com harmonização facial e procedimentos estéticos recorrentes) postam na rede social as suas cirurgias como se fossem tão normais quanto passar um batom.

Os cirurgiões e as clínicas envolvidas oferecem permuta para essas influencers. Enquanto elas não pagam pela cirurgia, o recado é claro: o produto é o corpo delas. É, também, a imagem que elas vendem de perfeição e felicidade nas redes sociais, que vai ser personificada na cirurgia, e vai convencer muitas outras que um procedimento extremamente invasivo e perigoso é a chave que abre a porta do sucesso profissional, da felicidade, das viagens sem fim e do mundo mágico que a classe média alta brasileira parece viver e propagar para seus seguidores que é só uma questão de “se esforçar” para chegar lá.

É claro, essas mulheres são tão vítimas do sistema quanto são propagadoras dele. E mulher nenhuma consegue alcançar o padrão que seus anunciadores pregam, visto que ele é criado digitalmente e mantido inalcançável – porém similar o suficiente à realidade, afim de que a gente caia nele – para que metade da população humana siga obcecada com aquilo que nunca poderão ter, e que ao mesmo tempo lhes é prometido desde a mais tenra idade: a beleza perfeita.

Naomi Wolf explica, em seu livro O Mito da Beleza, que isso é proposital: feito para nos manter inseguras, mais pobres e sem tempo livre para nos organizarmos de forma a exigir direitos políticos. A autora faz uma retrospecção histórica – focando nas mulheres de classe média – explicando que, desde a inserção em massa dessas mulheres no mercado de trabalho, a mídia nos bombardeia com mensagens que dizem abertamente ou indiretamente que somos insuficientes: isso é, existir, quando se é mulher, não basta. A vida completa para uma mulher depende – e é posta em cheque por – de sua aparência.

Para entender isso, basta olharmos para os veículos de comunicação à nossa volta. Na TV aberta, observamos um apresentador homem gordo todos os domingos. Um homem narigudo todos os sábados. Toda noite, um homem de meia idade – aparentando estar na meia idade – apresenta o principal jornal junto com sua co-âncora: 11 anos mais nova que ele, aparentando ser ainda mais jovem. As mulheres da TV possuem, em sua maioria, características similares: aparentam ser mais novas do que são, são magras e possuem traços europeus no rosto. São, em resumo, próximas ao padrão de beleza.

Aos homens, a exigência do padrão não é tão clara – apesar de serem em maioria brancos, não possuem todos corpos parecidos, traços parecidos no rosto. São indivíduos: ocupam uma posição de destaque e alcance porque são competentes para tal. Suas “belezas” não foram um fator na contratação.

Para as mulheres, a mensagem do padrão é a de que são substituíveis. Se o critério é juventude e beleza, então qualquer uma pode ocupar aquele posto. Ou, se beleza é um critério tão importante quanto a competência, e se o que é belo é o que é jovem, bastam alguns anos para que aquela mulher que ocupa uma posição de destaque seja substituída.

O exemplo da TV é um recorte do todo. A aparência das mulheres é critério de decisão se serão ou não contratadas em um emprego, se se sentirão confortáveis ou não ao fazer sexo, se serão ou não saudáveis. A importância de ser bela na vida de uma mulher é tamanha que afeta cada pequena parte da nossa vida: estamos sempre sujeitas à validação externa em relação à nossa aparência, mesmo quando essa não foi solicitada. O culto à beleza está presente em todas as esferas de nossas vidas, especialmente na do trabalho (que é, afinal, na perspectiva dessas influenciadoras, composto pelo mesmo instagram que propaga o mito e nos mantém refém dele). Mas a exigência da beleza não se aplica apenas para pessoas que vivem da própria imagem: ainda hoje, um empregador se acha no direito de cobrar que sua funcionária emagreça antes de pagar os direitos trabalhistas dela.

A busca pela beleza é tanta – acreditamos tão profundamente que só teremos uma vida plena quando formos belas, porque é isso que nos é dito e demonstrado desde a infância – que aprendemos a minimizar todos os riscos de um procedimento invasivo e dispensável.

As mortes em cirurgias são um extremo de toda uma cultura de anúncio de chá que promete desinchar (porque, afinal, se mulheres incham em período pré menstrual, e a gente convencer elas de que isso é horrível, olha só o mercado a se explorar!), de gel que mata gorduras, de cremes que disfarçam rugas, de máscaras de “autocuidado”, que baseiam suas vendas em justamente nos fazer sentir feias, e em anos e anos ouvindo dizer que a beleza é nosso principal atrativo, aquele elemento que nos torna completas, em oposição aos homens, que já são considerados indivíduos independentemente das suas aparências..

A morte de Liliana não é fruto de uma busca individual de uma mulher pela perfeição. Ela é fruto do bombardeio de mensagens que todas as mulheres recebem e que traduzem a mensagem de que só serão felizes quanto atingirem o padrão de beleza – padrão esse que, propositalmente, muda a cada punhado de anos, e que afeta cada aspecto de nossas vidas: de quanto salário ganhamos até se teremos acesso ao amor. O bombardeio é para todas, a consequência também. O problema é social, é político, não é individual.

E, num momento tão triste quanto o da morte de mais uma de nós, o próprio  cirurgião culpa a vítima, que também é banalizada pelas pessoas ao comentarem “pra quê ela foi fazer isso?” e apagada pelo fato de que, um dia depois da morte dessa mulher, há mais tantas fazendo propagandas sobre lipo-lad, cinta emagrecedora, corpo perfeito nos seus instagrams, é importante lembrarmos: o que atinge uma de nós atinge todas nós.

Lembremo-nos dessa morte como uma morte que poderia ter sido evitada, mas não foi porque não é interessante para o mercado que nós sejamos seguras com nossas aparências. Lembremo-nos disso para entender que nem a mais privilegiada de nós tem o direito de ser entendida como um ser humano cuja vida importa. Lembremo-nos disso para, enfim, nos organizarmos cada vez mais e lutarmos contra essa maré, que mata Liliane e outras tantas – tão insignificantes para o sistema que nem a razão de seus falecimentos foi registrados devidamente.

Que a gente se lembre de Liliana, que a gente se veja em Liliana, e que possamos nos organizar para, politicamente e socialmente, lutar pelo direito de sermos vistas enquanto indivíduos completos.

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