A perda de identidade de mulheres casadas, quem as destrói são seus companheiros – Quem vai salvar Tereza?

Tereza, mulher forte. Altiva. Imponente.

Tem um semblante que marca. Os amigos, a tomam por “um mulherão”. Os colegas de trabalho(já faz um tempo que ela não trabalha fora de casa, hoje faz pães…mas na fábrica de tecidos), muitas vezes por “forte quase como um homem”. Pros filhos, é uma mãe que trabalha muito. Pro marido, bem…ele sempre diz que ela faz a parte dela… E se perguntar a ela mesma? “Existem momentos que são difíceis, mas sigo firme”.

Tereza vive um relacionamento “sólido” há 18 anos. Carlos, era um namorado atencioso. Dedicado. Sempre tinha mimos e carinhos. Um tanto ciumento, mas naquela época, Tereza imaginava que era só muito cuidado. Eles tiveram algumas “briguinhas” por isso. É que Carlos ficava “incomodado” com o decote ousado da Tereza, os cabelos coloridos. Tereza gostava de Carlos, de verdade. Gostava até deste cuidado que ele tinha, ela se sentia amada. Então, para evitar desentendimentos…ela foi mudando. O decote, deu lugar a cortes retos…a cor dos cabelos, agora tem tom natural. As risadas altas, se tornaram em risinhos contidos. A cantoria agora, só se ouve muito às vezes, durante uma ducha.

Tereza. Ela foi se redescobrindo. E descolorindo também. A medida que ela ia se moldando àquele “perfil” que Carlos se sentia mais confortável, ela foi se apagando. O engraçado, é que quão mais Tereza se contorcia para caber naquele molde criado por Carlos, menos ela era Tereza. E os carinhos foram ficando cada vez mais escassos, os mimos deram lugar a um vazio e a afetividade que havia entre os dois, hoje é difícil até de rotular. Como ela mesma diz “vivemos bem, em família”.

Carlos, embora ficasse nervoso, nunca a agrediu fisicamente.

Ele tinha alguns rompantes, potencializados pela bebida. Às vezes gritava, falava palavrões…dava soco na mesa. Mas assim, “só” ríspido. Tereza achava que era só o jeito dele.

Quando veio a pandemia do novo coronavírus, as coisas pioraram um pouco. Tereza, ficava em casa cuidados dos afazeres domésticos, dos dois filhos e fazia uns pães para vender na vendinha do bairro. Carlos, passou a trabalhar de casa. Essa foi a grande mudança na vida deles. Carlos passou a ficar muito tempo em casa, já não passava no barzinho às sextas (ele sempre fazia isso no retorno do trabalho). Já não tinha mais o futebol do final de semana. Ele reclamava do barulho das crianças brincando no quintal, do latido do cachorro do vizinho, da música alta do adolescente da casa da frente, de Tereza passar tanto tempo vendo (diga-se ouvindo) o programa de culinária que passava todas as manhãs enquanto ela preparava o almoço. Teve o episódio da bermuda manchada… é que Olívia (a filha caçula) ao tentar ajudar a mãe, acabou confundindo os produtos e colocou água sanitária. Pronto! Foi o suficiente para que Carlos gritasse por todo final de semana, as crianças choraram assustadas, Tereza ficava quase sem respirar a noite…fingindo dormir, enquanto limpava as lágrimas que lhe desciam os olhos.

Tereza teve um estalo, quando Pedro (o filho), perguntou pra mãe se a redação que ele tinha feito pra escola, estava boa o suficiente. Eles estavam estudando sobre Direitos Humanos, Igualdade de Gêneros, Direito das Mulheres e etc. O texto, tinha um parágrafo de introdução e a criança precisava continuar a escrever. “Os direitos das mulheres são uma ramificação dos direitos humanos e baseiam-se no princípio da integridade e dignidade do ser. Embora os direitos humanos sejam ditos universalistas, ou seja, aplicáveis a todos indiscriminadamente, as condições históricas, econômicas e sociais impedem que a previsão realizada em um plano teórico se concretize. Portanto, apesar da regulação jurídica, depara-se com uma sociedade em que ainda vige a discriminação contra mulheres, negros, homossexuais, entre tantas outros grupos marcados pela diferenciação em relação a uma normatividade (inspirada pela figura do homem branco, heterossexual, eurocêntrico).” Pedro, menino aplicado, gostava tanto de ler…era justo. Desenvolveu muito bem todo o texto. O que doeu em Tereza, foi quando Pedro mencionou “existem mulheres que suportam as dores de um relacionamento, em função de alimentar seus filhos. Mas estas mulheres, ainda não enxergaram a força que elas tem. Não é culpa delas. É culpa da sociedade, da criação…do medo. Talvez, um dia elas consigam despertar para a vida. Acreditar que podem recomeçar. Se encontrar alguma mulher nessas condições, apenas acolha.”

Aquilo foi pior que um soco no estômago. Claro que Tereza sabia o que vivia. Mas ela sempre achou que o sofrimento era menor que a alegria que ela proporcionava aos filhos, por terem uma família. Que conseguia esconder as lágrimas, ou conter os gritos e bebedeiras de Carlos.

Se reconhecer em um relacionamento abusivo, é o primeiro passo para conseguir sair dele. Não que seja fácil, porque não é mesmo.

Tereza, construiu uma realidade que pra ela, tudo justificava em função da família que ela havia construído. Que pela família, valeria a pena passar por tudo aquilo, que talvez… Casamento fosse assim mesmo… Afinal, todo mundo briga né gente? É. É verdade sim. Todo mundo briga. Ou melhor, é normal termos pontos de vista diferentes, termos momentos em que falamos algo que depois a gente se arrependa. Mas peraí? Não é normal gritar, proibir, querer que o outro se molde a suas vontades… Aquele soco na parede, sim, é uma agressão. Quando ele te proibiu de falar com suas amigas de infância, porque tem aquela solteirona que segundo ele “dá pra todo mundo”, sim, ele te agrediu. Quando ele passou o final de semana gritando, bebendo por isso, porque manchou uma bermuda…eu sinto muito por isso. Mas sim, ele te agrediu.

Embora haja avanços obtidos na defesa dos direitos das mulheres, a violência contra a mulher ainda é um grave (e grande) problema social. Muitas vezes as vítimas de violência doméstica não denunciam os agressores; por medo, por dependência financeira, por acreditar “no valor da família” ou por intimidações e violências de diversas naturezas.

Infelizmente, existem tristes e criminosos fatos, como: (…)Nos últimos 12 meses, 243 milhões de mulheres e adolescentes de 15 a 49 anos foram submetidas a violência sexual e/ou física por um parceiro íntimo, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres. “Como resultado do isolamento imposto para impedir a disseminação da covid-19, dados mostram que esse tipo de violência se intensificou”, aponta a entidade. (fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52998256).

Mulheres como Tereza, estão em casa. Com seus agressores, travestidos de maridos, namorados, companheiros. Elas estão a mercê desses “homens” que as objetificam como um objeto de posse, sem vontades.

“A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 presta uma escuta e acolhida qualificada às mulheres em situação de violência. O serviço também fornece informações sobre os direitos da mulher, como os locais de atendimento mais próximos e apropriados para cada caso: Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referências, Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam), Defensorias Públicas, Núcleos Integrados de Atendimento às Mulheres, entre outros.  A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. São atendidas todas as pessoas que ligam relatando eventos de violência contra a mulher.”

(fonte: https://www.gov.br/pt-br/servicos/denunciar-e-buscar-ajuda-a-vitimas-de-violencia-contra-mulheres)

 

Fiquem atentas e lembrem-se: “Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.”  – frase de Audre Lorde

Mulheres, se cuidem. Se amem. Se apoiem. Busquem ajuda.

Não apontem a outra que vive uma situação de abuso, porque acredite…ela não queria viver isso.

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