MULHER GORDA: Um corpo proibido!

Na minha infância, como criança gorda, lembro de muitos episódios em que outras crianças riam de mim, na aula de educação física por exemplo, segundo aquelas outras crianças, não conseguia correr pelo tamanho do meu corpo. Eu me esforçava tanto para nunca perder e mostrar que era gorda, mas conseguia correr, que sempre terminava exausta e nem sempre conseguia ganhar, lógico!

Mas, foi num dia em particular que a quadra estava cheia de gente, era gincana na escola, que eu fui tão ansiosa para ganhar entre 10 alunos, que cai de cara no asfalto da quadra e ralei meus joelhos, mãos e doeu muito, tanto fisicamente como emocionalmente, porque ouvia os risos e comentários sobre minha incapacidade por ser gorda. Nenhum adulto que estava lá me protegeu, ou reprendeu as outras crianças que riam de minha dor.

Na adolescência, ganhei uma saia curta branca de pregas, era o uniforme para fazer atividade física da escola pública que frequentava, me olhei no espelho e me senti linda naquela roupa. Estava dançando com outras amigas usando a saia, quando um grupo de meninas começaram a rir e apontar para mim, e ouvi de longe: – a gorda ridícula quer dançar; que nojento! Doeu, e mais uma vez a violência, ódio, nojo ao meu corpo aconteceu, foi assim que fui crescendo e entendendo que meu corpo representava na sociedade: fracasso, risos, nojo!

Quando adulta, fui ridicularizada muitas vezes por ser gorda, lutava para estar sempre magra, já que ser gorda nesse mundo dói demais, passei mal, desmaiei, fiquei sem comer, tomei remédio, não importava os meios, mas o fim era estar “magra” e para isso valia tudo e qualquer coisa. Cometi diversas atrocidades contra mim mesma, nessa construção de um corpo almejado que não era o meu e que para tê-lo era preciso me machucar.

Penso agora quanto sofrimento, era dor para todos os lados, por estar gorda e querer ser magra, sempre estava me automutilando, machucando, desprezando. A sociedade não me dava outra saída, e eu no fundo queria simplesmente viver com o corpo que eu tinha: gorda. Mas a saúde, a educação, a família e amigos me diziam: Emagreça por sua saúde.

Tanta dor me levou num momento da vida adulta a repensar tudo isso, por quanto tempo continuaria seguindo esse padrão de sofrimento, perseguindo essa dor para estar e ser aceita numa sociedade que nunca estava satisfeita com meu corpo, quem eu era e o que buscava: Viver, simplesmente SER.

Aos poucos comecei a estudar a fundo a questão do corpo gordo, entender os mecanismos que a gordofobia atua, identificar que ela é a mola propulsora normalizada. Mola propulsora de tanto sofrimento, e ainda me culpar por tudo isso, como o mecanismo heteronormativacolonial consegue sempre culpar as vítimas com maestria, porque a própria vítima também se culpabiliza.

Esse caminho tem sido longo e nada linear, depois de uma tese defendida, ativismo, leituras, aulas, Lives, feminismo e muito trabalho de mudanças de paradigmas sobre o corpo gordo, mas principalmente sobre  meu corpo gordo maior, em que entendi que toda essas dores, feridas que tenho marcadas em meu corpo, vem das atitudes normalizadas das pessoas em invisibilizar quem somos, o que fazemos, definitivamente: MULHER GORDA não pode existir.

Pensem comigo: quantas histórias de mulheres gordas vocês conhecem na arte? Quantas mulheres gordas que aparece e mostram o que fazem são aceitas, valorizadas, compreendidas? Aposto que são bem poucas e quando existem, são desvalorizadas ou anuladas, existimos e o tempo todo nos é apagado o direito de existência.

Nas minhas redes por exemplo, mesmo agora que venho a anos desconstruindo o que significa ser uma mulher gorda, sou relembrada a todos os dias que minha história, o que tenho para dizer, falar, construir, ou mostrar deve ser apagado, bloqueado. Meu corpo não pode aparecer como outros corpos que vemos na internet, é um corpo proibido.

Sou colocada em um lugar social de exclusão, de inferioridade, como se não merecesse contar minha história, meu ponto de vista a todo momento, e você que ainda acha em pleno século 21 que as pessoas gordas estão doentes, ajuda a fomentar esse ódio ao meu corpo, aos corpos gordos.

A gordofobia opera disfarçada em saúde e cuidado, mas na realidade é ódio que as pessoas tem que esses corpos existam e resistam: nossas redes são denunciadas, bloqueadas sequencialmente, como se  por sermos uma mulher gorda não tivéssemos o direito de nos mostrar, estudar, ser doutora, ensinar, aprender, dançar, cantar, pesquisar, escrever ou simplesmente viver, existir… Estamos falando de um sistema de apagamento de nossas vidas, um dia atrás do outro, de um extermínio sistêmico de corporalidades gordas em muitas frentes, na maternidade, na academia, no ativismo, na literatura, na dança, na saúde, na atividade física, na internet… Na VIDA!

O funcionamento dessa lógica gordofóbica é, e está em todo lugar, dentro da sua cabeça,

MULHER GORDA: APAGA TUDO!

Para Consultar:

– Erving Goffman. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada.

– Rafael Mattos. Sobrevivendo ao estigma da gordura.

– Michel Poulain. Sociologia da obesidade.

texto do BLOG: Gordofobia uma questão de perda de direitos. Maria Luisa Jimenez Jimenez -https://www.todasfridas.com.br/2018/03/11/gordofobia-uma-questao-de-perdaa-de-direitos/

Tese que virou livro, lute como uma gorda: gordofobia, resist~encias e ativismos.
Tese de doutorado lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos.

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