Relacionamento Abusivo é só um outro nome para Violência Doméstica

Se te falo para pensar em violência doméstica contra a mulher, no que você pensa?

Vou tomar um risco e apostar que pensou em casos de feminicídio, agressão física, perseguição. E embora seja verdade que esses casos representem boa parte dos assombrosos dados de violência contra a mulher no nosso país – maiores ainda após a pandemia -, quero resgatar essa parte aqui da Lei Maria da Penha pro texto de hoje:

Art. 5º. Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:(…)

III – em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. (grifo meu)

Resgato esse artigo porque feministas falam frequentemente que Relacionamento Abusivo é só um nome mais aceitável para violência doméstica contra a mulher (seria essa uma estratégia para manter mulheres ainda mais alheias sobre a violência que vivem?). E a lei comprova: é mesmo.

Embora esteja tipificado na letra da lei, infelizmente a legislação não é suficiente para oferecer proteção às mulheres – não sem estar aliada à políticas públicas eficientes e à uma mudança estrutural e cultural que parece não ter chances de acontecer efetivamente em um sistema capitalista, nem no governo autoritário sob o qual vivemos.

Explico: quando falamos em machismo nos tempos atuais, falamos necessariamente de capitalismo: um sistema que baseia sua economia nos trabalhos reprodutivo, doméstico e de cuidado, feitos de forma não remunerada por mais da metade da população mundial. Não, o machismo não nasceu do capitalismo. Mas o capitalismo se beneficiou muito da estrutura patriarcal já estabelecida em tempos anteriores ao triunfo do sistema, e isso significa que, em boa parte, enquanto houver capitalismo, haverá desigualdade.

E para manter essa desigualdade, é importante que aspectos culturais validem e reforcem estereótipos – no caso desse texto, me refiro aos estereótipos sexistas, mas poderia estar falando de qualquer outro tipo de preconceito – , tornando a população anestesiada para o fato de que há discrepância na forma como pessoas são tratadas, na forma como podem (ou não) exercer seus direitos com base em sexo/gênero.

O texto de hoje é sobre Relacionamento Abusivo. Mas é importante falar sobre essa estrutura porque o fato dela existir significa uma coisa: provavelmente, toda mulher tem uma história de abuso a contar. 

E embora o primeiro pensamento que apareça quando falamos em violência seja a física, escolho falar aqui do abuso que chamo de “sutil” , porque justamente é ele que é ressaltado pela cultura pop, pelas tradições familiares, por religiões e pela mídia. É a partir dele que, às vezes, outros abusos maiores se desenvolvem. Mas mesmo que isso não ocorra, o “abuso sutil” por si só deixa consequências psicológicas graves.

Perguntei em um post no Instagram à mulheres quais as experiências de abuso sutil que elas haviam vivenciado. As respostas foram bastante similares, remetendo à situações de controle e posse disfarçados de cuidado ou amor. De pequenos comentários “brincando” sobre seus corpos, seus ideais e suas inteligências que aos poucos foram minando suas confianças. Pedidos de pequenas mudanças no jeito de falar, pensar, se comunicar das mulheres como “provas de amor”, de “cuidado”, de “reciprocidade”. Tentar impedir de sair com a desculpa de que “confio em você, não confio nos outros homens” ou então “quem sou eu pra te mandar não ir, faz o que você quiser, mas eu preferiria que não fosse”. Exigências de atenção ao longo do dia todo – “você não me responde porque não me ama mais”, “você parece que tá comigo mais para ser amiga dos meus amigos do que minha namorada”. Serem chamadas de loucas em discussões (ou de “brincadeira”, entre amigos). Agressões sexuais disfarçadas de inseguranças (“você não quer transar comigo porque não me ama mais”, “porque não gosta do meu pinto”). Virar o jogo quando a mulher diz que se sente mal no relacionamento ou reclama de alguma atitude, tornando uma dor da mulher em uma dor do abusador.

Para cada uma dessas coisas, há alguma referência da cultura pop que as ensinou que é assim que o amor se parece. Vamos pensar no que consumiam as adolescentes dos anos 2000: Edward, em Crepúsculo, quebra o carro da Bella para que não vá ver um amigo, invade sua casa contra sua permissão, a afasta dos amigos e faz com que ela se torne emocionalmente dependente dele, tudo sob a justificativa de um amor intenso, que busca “protegê-la”. Em Harry Potter, Ron constantemente critica Hermione – às vezes em tom de briga, as vezes como “brincadeira” – e os dois acabam juntos. Em Grey’s Anatomy, Meredith fala à Derek que não quer mais ficar com ele – ele era seu chefe, afinal – e ele ignora todos os nãos, insiste num relacionamento “esquecendo-se” de contar o detalhe de que era casado. Depois, torna uma situação de quase-morte para Mer em algo sobre ele – “estou cansado de respirar por você” – e, quando Meredith diz que não consegue confiar nele, Derek faz o gaslighting supremo e diz que ela, na verdade “não confia em ninguém”. Em Friends, Ross não consegue ficar feliz pelo sucesso profissional de Rachel: ao invés disso, decide que um ciúme louco por Mark é razão suficiente para ir em seu local de trabalho, criar uma cena que quase pôs fogo no prédio e ainda sair como vítima.

Consumimos esses – e muitos outros exemplos – tanto no que lemos e assistimos quanto ao observar relacionamentos em nossa volta. Aprendemos que mulher que merece amor é mulher que luta por amor, que se anula por amor – quem nunca ouviu um padre/pastor falar que a mulher ideal é submissa, com essas exatas palavras? -, e aprendemos que amor é sofrer. Aprendemos que homem é “assim mesmo”, que ciúme é amor, que controle é cuidado, ou insegurança. E aprendemos que temos que sempre nutrir. Então, quando vivemos um relacionamento abusivo – independente de quanto tenhamos estudado sobre isso, de sermos feministas ou de qualquer outro fator – muitas vezes não reconhecemos o abuso sutil.

O abuso sutil é perigoso justamente porque é sutil. É perigoso justamente porque, durante boa parte das nossas vidas, aprendemos a agradar, não fazer barulho, que só certas mulheres têm valor (não por acaso, as que representam exatamente os ideais de feminilidade que visam nos manter submissas). É perigoso porque os homens aprenderam que têm direito à nós: não como pessoas, não como companheiras, mas como objetos de posse. E é perigoso porque a vida toda fomos ensinadas que abuso é, na verdade, amor.

No total, mais de 60 mulheres vieram falar comigo, compartilhando seus relatos, suas histórias. Todas inteligentes, lindas, bem sucedidas, bem informadas. Todas vítimas de violência doméstica contra a mulher, assim como eu fui. E embora a estrutura seja ainda forte o suficiente para ter vitimado a todas nós, isso não significa que ela seja indestrutível: significa apenas que enquanto nos reconhecermos em nossas dores, enquanto soubermos nomear o abuso como violência e enquanto soubermos nos informar – e levar informação para mais mulheres -, resistiremos. E seguiremos resistindo, até que isso não seja mais necessário.

Redes sociais

  • /TODASfridas
  • @todasfridasoficial
  • @todasfridasoficial
  • comercial@todasfridas.com.br

Todas Fridas

fifitransp