O feminismo decolonial: o que é e as percepções do gênero

A universalidade afeta diretamente a construção da identidade pela modernidade como unificada e superior, calcada em características transformadas em constitutivas do ser humano, como raça, gênero e nacionalidade.

Essas identidades são dadas como periféricas, fora do real, mesmo que não exista possibilidade de existir fora do sistema, porém, para o autor Walter Mignolo – umas das figuras centrais do pensamento decolonial latino-americano – existem diversas exterioridades que podem servir de local de emergência de outros conhecimentos fundamentados na existência pluriversal de identidades e culturas. 

A interculturalidade e a decolonialidade pertencem a este “imaginário decolonial”, segundo Mignolo. São chaves importantes para pensar em compreender como as narrativas produzem outras formas de comunicação a partir da vivência de sujeitos e identidades plurais. 

Mas então, o que é o feminismo decolonial?

Os esforços feministas da chamada “segunda onda” do movimento e os desdobramentos contemporâneos hoje estão dissipados em discussões paralelas acerca das diferentes correntes do movimento de mulheres.

Temáticas tidas como “privadas” também foram reivindicadas como violência doméstica, questões reprodutivas, direito ao sexo e ao corpo. Desde o final da década de 70, com o florescimento do feminismo negro nos Estados Unidos, surgem críticas de teóricas como bell hooks quanto ao centramento do sujeito “mulher” no universalismo ocidental branco

Para hooks, teóricas feministas brancas construíram o discurso pautado em reivindicações e problemáticas embasadas na luta pela ocupação do espaço público, pelo direito à trabalhar, pelo fim da reclusão à esfera privada, sem considerar realidades de outras mulheres que já estavam circulando por estes espaços. Sem considerar os atravessamentos de raça e classe de outras mulheres que passaram por processos de socialização e generificação diferentes, com outros agravantes e outros desdobramentos. 

Essa negação impediu que fronteiras fossem cruzadas e outros caminhos permeados por diferentes movimentos e opressões fossem trilhados em conjunto. Com isso, identidades constituídas pelas problemáticas de raça e classe não constavam como construtoras de um movimento que se diz “unificado”. O sexismo, embora institucionalizado e universal, não afeta da mesma forma todas as mulheres, como já afirma hooks. Nesse sentido, outros eixos como raça, classe, etnia e sexualidade não foram considerados como fatores relevantes na narrativa central do feminismo branco.

O sistema capitalista passou também por uma mudança histórica no seu caráter de atuação e auto-reprodução, novos paradigmas foram adotados para a sobrevivência e adaptação dessa hegemonia. O avanço neoliberal, o mercado usado para domesticar a política e o desenvolvimentismo aplicado aos estados pós-coloniais –  são pontuações importantes para compreender a “afinidade eletiva perversa, subterrânea entre eles [feminismo e neoliberalismo]”.

A efervescência das reivindicações pelo direito à diferença e à identidade, facilmente foram ressignificados pelo capitalismo, enquanto a atenção estava voltada para a crítica à cultura e não ao economicismo. 

O individualismo do feminismo burguês, que constitui a ideia de sujeito baseado na totalidade e na essência de si, característica propícia para o neoliberalismo racionalizar lutas coletivas a partir das vivências transforma-as em produtos e competitividade de mercado.

Essa instabilidade e deslocamentos que o gênero e o sexo vêm sofrendo nas teorizações acerca do movimento feminista é acusada por María Lugones e Nancy Fraser, que pensa a modernidade como produtora das categorias de raça e sexo. Para a autora, sexo tem uma história biológica contada e não é natural, assim como a raça – categoria primeira e mental da colonialidade – como aponta um dos teóricos expoentes da teoria decolonial, Aníbal Quijano.

Assim, o sistema moderno naturalizou tal hierarquias sociais, codificando os corpos humanos a partir do gênero, processo de engendramento, esse processo é explicado pelo teórico e ativista Paul Preciado. Repensar essas codificações e significações dadas pela modernidade na perspectiva interseccional permite a visibilização de outras identidades das mulheres de cor e latinoamericanas.

Esse processo perpassa o entendimento de que há um vazio entre as categorias fixas estruturais de raça, classe e gênero, e que é preciso reconceitualizar a interseccionalidade para abarcar identidades que estão se auto-nomeando e ressignificando termos a si mesmos. Dessa forma, novas identidades geoculturais, sociais e sexuais são possíveis de existirem enquanto sujeitos constituidores de um conhecimento calcado na experiência subjetiva definidoras dessas identidade, nas possibilidades de existir.

As percepções acerca do gênero na visão decolonial

A instabilidade das categorias analíticas do gênero e como as versões universais e fixas dos papéis e identidades das quais o discurso feminista parte são na verdade conceitos neutros que reproduzem hierarquias ocidentais.

Nesse sentido, é preciso pensar na possibilidade de epistemologias e movimentos alternativos e além dos aspectos da modernidade. Assim, pode ser possível “construir ou atingir uma concepção a partir’ da qual a natureza e a vida social podem ser vistas como realmente são, como sugere a teórica feminista Sandra Harding.

Essa construção parte de um momento comum de interpretações para então alicerçar uma identidade partilhada correspondente com as vivências de realidades como a latino-americana, a indígena, a africana. Um modo de interpretação que não seja exageradamente generalizadora enquanto epistemologia.

A pesquisadora nigeriana Oyèrónkẹ Oyěwùmí, encaminha como ponto questionador em relação ao gênero é justamente a pergunta “por que gênero?”.

Como o gênero pode ser retomado, se é necessário pensar a partir das teorizações de gênero, se, pensar a partir desse conceito gênero estável não conflui para um silenciamento de outros contextos. O que a autora reflete é sobre o papel inerente da mulher ao papel de gênero fixo na sociedade ocidental imperialista e apresenta um forma de análise da “mulher” enquanto categoria situacional.

A crítica principal aos estudos de gênero centrados na “Mulher” – categoria universalizante – começa pela desconsideração de outras opressões como a raça, classe, imperialismo e também da colonização.

A teoria feminista decolonial, portanto, propõe pensar o gênero para além do seu valor nominal, e, principalmente, para além da centralidade na família nuclear, já que outras realidades existem e se constituem sem o gênero como fator determinante das relações ou como constitutivo das identidades.

Ou seja, pensar a partir das mulheres, de todas as mulheres, que experienciam essa realidade, que parta de dentro, das subjetividades que se constituem nesse lugar, é pensar um conhecimento que parta do outro, da própria diferença.

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