Síndrome do impostor sob a ótica racial: como o racismo afeta a vida profissional dos negros?

Explicando o conceito de forma bem simplificada, síndrome do impostor é a sensação de incapacidade de estar na posição que atua profissionalmente. A pessoa, de fato, se sente uma impostora, uma fraude, por estar ocupando determinado espaço/cargo.
Atualmente o tema é mais debatido, principalmente depois da palestra em que Michele Obama (advogada, escritora, ativista e ex-primeira-dama) afirmou ainda sofrer de síndrome do impostor. O assunto veio à tona e no campo da psicologia e estudos sobre carreira tem sido bastante analisado e vem apresentando formas/dicas das pessoas superarem isso.
Os estudos sobre o tema iniciaram com duas psicólogas norte-americanas, Pauline Clance e Suzanne Imes, em 1978, da Universidade Estadual da Geórgia. A pesquisa realizada por elas com 150 mulheres em posição de destaque profissional, mostrou que quanto mais respeitadas e bem-sucedidas, mais essas mulheres se sentiam inseguras e acreditavam ser uma fraude.
Discute-se o tema, geralmente, sob a ótica de gênero, do quanto uma sociedade patriarcal afeta a autoestima das mulheres a ponto de desenvolver tal síndrome. Mas pouco se fala, mesmo após o discurso de Michele, que é uma mulher negra, do quanto o racismo pode desenvolver a síndrome do impostor em pessoas negras.
Vivemos em uma sociedade estruturalmente racista. Racismo estrutural é descrito por Sílvio de Almeida como “uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. O racismo é estrutural. Comportamentos individuais e processos institucionais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra e não exceção”. Assim, como consequência de 388 anos de escravidão no Brasil, até hoje é dado às pessoas negras o papel da subalternidade, subserviência e marginalidade. Negros atualmente no Brasil representam, em percentual, maioria de desempregados, de população carcerária, de pessoas assassinadas pela polícia e de várias outras estatísticas negativas.
Adicionalmente a isso, quando se trata do tema racismo no campo profissional, os dados também não são animadores. Conforme o PNAD contínuo de 2019, dentre as pessoas ocupadas, o percentual de pretos ou pardos em ocupações informais chegou a 47,4%; a população ocupada de cor ou raça branca ganham em média 73,4% mais do que a preta ou parda; o rendimento-hora de brancos com nível superior é de R$ 33,90, enquanto pretos e pardos com o mesmo nível de instrução ganham R$ 23,50 por hora trabalhada.
O relatório do Instituto Ethos de 2010, “Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas”, quando analisa por recorte de raça, a composição das empresas pesquisadas evidencia o formato de pirâmide, onde os negros são maioria no cargo de aprendiz e minoria em cargos de gestão, a ponto de ter menos de 5% de negros no quadro executivo e conselho de administração, respectivamente. Assim o negro é forjado diariamente a entender o seu lugar, segundo o racismo estrutural. Mas, conforme a insígnia “nossos passos vêm de longe”, os negros contudo têm conseguido, aos poucos, avançar e ocupar lugares que lhes são negados. Todavia, esse avanço é com muita luta e, justamente por isso, negros costumam passar por muitos obstáculos de acesso, tendo que provar constantemente suas competências, o que consequentemente traz às pessoas negras insegurança em ambientes profissionais.
A insegurança é o ingrediente perfeito para a síndrome do impostor, pois é nela que mora a sensação de não estar pronto, de não ser capaz ou de ser uma fraude. Assim, outros comportamentos tornam-se comuns como autossabotagem, trabalho em excesso, sensação de que sozinho não é capaz e até mesmo a atribuição de suas vitórias ao acaso ou a sorte.
O presente texto não tem objetivo de esgotar o tema ou tratar o tema sob o viés da psicologia, mas sim trazer uma reflexão racial. Afinal, se em uma sociedade patriarcal mulheres desenvolvem síndrome do impostor, numa sociedade racista e patriarcal pessoas negras, especialmente mulheres negras, com certeza sofrem com tal síndrome. Para você que é negro e está em uma posição profissional ou exercendo qualquer atividade em que por diversas vezes lhe foram ditas, mesmo que intrinsicamente, que este lugar não é seu ou para pessoas como você, pense o seguinte: se num sistema racista você conseguiu alcançar esse lugar é porque você é o melhor no que você faz e esse lugar é seu, por luta, por direito e por competência.

Bibliografia/ Indicações complementares:

DE ALMEIDA, Silvio Luiz. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

TedTalks: Alexandra fala da importância de ajudar a melhorar a autoestima das crianças afrodescendentes.: https://www.youtube.com/watch?v=pAcebtGKThA&t=179s

https://www.thestar.com.my/news/nation/2019/12/12/find-039joy039-or-risk-burning-out-says-michelle-obama

O encarceramento tem cor, diz especialista

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/07/15/negros-sao-75-dos-mortos-pela-policia-no-brasil-aponta-relatorio.htm

INSTITUTO ETHOS – Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas. (2016) (https://www.ethos.org.br/wp-content/uploads/2016/05/Perfil_Social_Tacial_Genero_500empresas.pdf

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/27594-pnad-continua-2019-rendimento-do-1-que-ganha-mais-equivale-a-33-7-vezes-o-da-metade-da-populacao-que-ganha-menos

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