Leituras feministas – autoras fundamentais

A prática e as lutas coletivas são, na minha visão, o principal papel do feminismo – para quem nosso conhecimento e nossa luta são direcionados? Para que serve e para quem serve o feminismo?
A teoria feminista é igualmente importante na medida em que pauta a prática, nos dá o contexto histórico e indica caminhos percorridos e a serem ainda conquistados.
Ler mulheres, em especial mulheres negras (ainda mais marginalizadas), é imprescindível para entendermos o mundo visto e vivido por corpos silenciados e marginalizados ao longo da história, inclusive na produção de conhecimento, política, e cultura. Ler histórias, e a nossa própria história contada pela perspectiva de (outras) mulheres é fundamental.
Pensando nisso, resolvi fazer uma lista de livros marcantes para mim, sem maiores pretensões, mesmo porque faltam aqui muitas obras e autoras (e também autores) de igual relevância e que todos deveriam ler e conhecer.
Escritos ao longo dos últimos 50 anos, esses são livros que li (dois deles ainda estou lendo, mas já suficiente para poder recomendar) e considero fundamentais para meu entendimento, minha visão de mundo e as lutas e práticas que abraço no meu dia a dia. Espero que também possa ser assim para quem nos lê.


Com ênfase no aspecto histórico, inicio essa lista por A criação do patriarcado, de 1986, escrito pela historiadora, escritora e professora austríaca Gerda Lerner (lançado no Brasil pela Editora Cultrix, 2019). Com uma extensa pesquisa cobrindo cerca de 2.600 anos e valendo-se de dados históricos, arqueológicos, culturais e literários, Gerda nos mostra como o Patriarcado enquanto sistema de organização social é fruto de um desenvolvimento histórico e como as classes são estruturadas e vivenciadas de forma diferente por homens e mulheres. aqui, Gerda Lerner defende a teoria de que o histórico de dominação das mulheres serve como ponto de partida para a dominação (subjugação e escravização) de outros povos/raças.


Ainda nesse mesmo aspecto, temos o já clássico O Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva, de 2004, da escritora, feminista e anticapitalista italiana Silvia Federici (no Brasil lançado em 2017, pela Editora Elefante). A autora lança um novo olhar sobre a transição do feudalismo para o capitalismo, que foi um dos períodos mais perversos para as mulheres, que sofreram um processo de degradação social, controle e disciplinamento de seus corpos, que foram fundamentais para a acumulação do capital, permanecendo assim até os tempos atuais.
Federici faz ainda críticas muito duras e pertinentes a Karl Marx e Michel Foucault, entre outros, visto que nenhum deles aborda o período de caça às bruxas, desconsiderando a real importância deste fato histórico no processo de transição para o capitalismo.
Tanto na obra de Federici quanto de Lerner, senti falta de um recorte de raça, para além dos tão bem abordados aspectos de classe e gênero. Assim como falta um olhar que incorpore o sul global, ou seja, países e culturas fora do eixo norte-americano e europeu. Na leitura dessas obras, sem um olhar crítico, pode-se pensar a mulher branca e européia/norte-americana como padrão universal.
Justamente aí se encontra a importância de uma leitura diversa e, principalmente, interseccional. Ler mulheres, mas somente mulheres brancas e européias não é nem perto do suficiente.


Em Mulheres Raça e Classe, livro seminal da estadunidense Angela Davis lançado originalmente em 1981 (no Brasil, lançado pela Boitempo em 2016), a filósofa, professora, dirigente do Partido Comunista de EEUU, ex integrante das Panteras Negras, faz uma análise interseccional e dialética da história das mulheres norte-americanas do século XIX e início do XX, analisando o lugar, as lutas e a vida das mulheres negras escravizadas, as lutas pela abolição da escravatura e pelo voto das mulheres e os/as diferentes atores/as políticos nesse jogo. Na obra, além de destacar a luta de personalidades antirracistas negras e brancas, Davis aponta a questão de como as estratégias das lutadoras pelo sufrágio foram assumindo em distintos momentos posições racistas ao assumir a supremacia da raça branca como ideologia geral da época.
A autora nos mostra, brilhantemente, que a questão racial, sempre marginalizada nos debates feministas hegemônicos, ou relegada a um assunto de mulheres negras apenas, é central porque diz a respeito da constituição de uma cultura nacional (o que vale para o Brasil, inclusive) baseada em hierarquias raciais, o que incumbe a toda a população, no presente e no futuro.
Preciso destacar ainda o capítulo que abre o livro, didático e profundamente doloroso de ler, mas indispensável para entender o quão importante é racializar o debate político num país de herança escravagista, sejam os Estados Unidos, seja o Brasil; nessa primeira parte, o relato da desumanização das pessoas escravizadas, suas lógicas de sobrevivência em meio à dor da tortura, do estupro disciplinador e do sistemático e planejado esfacelamento das famílias negras deixa claro que a herança cultural, social e as experiências das mulheres negras neste continente em nada se parecem às de suas irmãs brancas, e portanto, suas pautas e lutas políticas específicas devem ser parte da luta geral das mulheres e de todos os seres humanos contra as injustas amarras do capitalismo.


O Feminismo é Para Todo Mundo, publicado em 2000 (no Brasil, lançado em 2018 pela editora Rosa dos Ventos) é uma proposta importantíssima e, a meu ver, revolucionária de bell hooks, (com grafia em minúsculas, conforme orientação da própria autora), professora, educadora e grande teórica do feminismo estadunidense.
Hooks propõe nessa obra mostrar uma perspectiva geral do movimento feminista e desmistificar algumas ideias erradas que a maioria do público tem com o feminismo. Em um livro de linguagem simples, acessível, e propositadamente não academicista, a autora quer despertar os interessados e busca atingir todos os membros da sociedade, para que juntos construam uma sociedade mais igualitária. Bell critica a forma como a teoria feminista se afastou das massas e se escondeu nas academias, se o objetivo é uma desconstrução da sociedade, nada é mais importante do que tornar essa discussão popular e acessível. Outro aspecto importantíssimo na obra é a centralidade da questão racial. Para bell hooks, o movimento feminista é, ou deve ser, por sua essência antirracista. Mulheres negras merecem ter a mesma atenção, suas questões têm o mesmo valor, e, portanto, só alcançaremos nossos objetivos quando estivermos juntas na luta contra a opressão de gênero, raça e classe.


É impossível falar de uma lista de autoras feministas e não citar a Lelia Gonzales. A própria Angela Davis, em sua última passagem pelo Brasil, em 2019, disse em sua palestra que achava muito curioso que nós, brasileiras e brasileiros a tenhamos como referência de feminismo e luta antirracista quando temos aqui a brilhante – e ainda pouco conhecida – Lelia Gonzalez, com quem Angela, segundo ela mesmo disse, aprendeu muito.
A antropóloga, socióloga, historiadora, filósofa, militante do movimento negro e feminista amefricana Lélia de Almeida Gonzalez é uma das autoras brasileiras mais fundamentais, em cujo pensamento vemos uma rara comunicação de saberes, para além da interdisciplinaridade. Desde sua experiência política formal (participou criticamente de partidos como PT e PDT e foi conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) ao lado de Benedita da Silva ), como militante feminista negra (atuou na fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), do bloco afro Olodum e do Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras), passando por sua densa e diversificada leitura teórica e suas andanaçs e trocas internacionais, pela Europa, America do Norte, Brasil e da América Latina – que Lélia rebatizou de Améfrica Ladina.
Sua extensa obra se tornou finalmente acessível com o livro Por um feminismo afrolatinoamericano: ensaios, intervenções e diálogos lançado em 2020 pela Editora Zahar/ Grupo Companhia das Letras, sob a organização das sociólogas Flavia Rios (UFF) e Márcia Lima (USP). Nesta obra, encontramos uma coletânea dos ensaios acadêmicos, publicações na imprensa, palestras e entrevistas de Lelia Gonzalez, elaborados no período entre 1975 a 1994, fruto de suas trocas com militantes e intelectuais internacionais, compartilhando questões raciais, de classe e de gênero em inglês, francês e espanhol, além do português – ou como preferia, sua africanização, o “pretuguês”.
Escritos de uma vida (Editora Polen, 2019) reúne os textos mais importantes escritos por Sueli Carneiro ao longo de sua vida. Sueli é uma das mais expressivas filósofas, ativistas (fundadora do instituto Geledes) e autoras do feminismo negro no Brasil e seus artigos abordam temáticas imprescindíveis para refletir sobre a nossa sociedade e compreender a história e política da luta das mulheres negras brasileiras.
A escrita de Sueli Carneiro é concebida a partir da vivência, fala de um Brasil que persiste e se reinventa na luta contra o racismo. Escritos de uma vida é um livro referência para discutir as questões de raça e gênero com pensamentos e reflexões de uma das maiores intelectuais do Brasil.


Djamila Ribeiro, filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira é uma das vozes mais atuantes e, considero, das mais relevantes no debate feminista e antirracista na atualidade. A criadora da coleção feminismos plurais (que inclui o seu livro de estréia, Lugar de Fala, entre outros autores e livros que abordam temas essenciais, como racismo recreativo, empoderamento, encarceramento em massa, racismo estrutural e etc) é autora de três livros, entre eles, o que escolho para integrar essa lista, Quem tem medo do feminismo negro? (Companhia das Letras, 2018).
Esse livro reúne um ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista CartaCapital, entre 2014 e 2017. Djamila, em sua trajetória acadêmica e prática, dialoga com autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, bell hooks, Sueli Carneiro, Alice Walker, Toni Morrison, Angela Davis, Lelia Gonzalez e Conceição Evaristo.
Muitos textos aqui reagem a situações do cotidiano — o aumento da intolerância às religiões de matriz africana; os ataques a celebridades como Maju ou Serena Williams, nos fazendo refletir sobre conceitos como empoderamento e interseccionalidade. Aparecem temas como os limites da mobilização nas redes sociais, as políticas de cotas raciais e as origens do feminismo negro nos Estados Unidos e no Brasil, além de discutir a obra de autoras de referência para o feminismo e para ela própria, como Simone de Beauvoir.


Nos ensaios da coletânea A mãe de todas as perguntas (Companhia das Letras, 2017) , a historiadora e ativista estadunidense Rebecca Solnit, uma das principais figuras do feminismo contemporâneo, oferece reflexões poderosas, em sua escrita incisiva e ao mesmo tempo divertida, acerca de temas fundamentais à realidade da mulher de hoje, como a desigualdade no espaço de trabalho, a cultura do estupro, o silenciamento feminino e a imposição da maternidade.
A divisão de papéis entre os gêneros é natural e sempre foi a mesma? De que formas as mulheres vêm sendo silenciadas ao longo dos séculos? nesse livro, Solnit responde essas e outras perguntas, em doze textos acessíveis e bem-humorados, sempre do ponto de vista do feminismo, sempre de forma didática e inteligente.

Feminismo para os 99% – Um Manifesto (São Paulo, Editora Boitempo, 2019), livro escrito conjuntamente pelas teóricas Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser e com prefácio da deputada federal Taliria Petrone (PSol-RJ) é um convite a repensar e reinventar uma luta de classes marxista. Nele, Arruzza, Bhattacharya e Fraser defendem que a própria conjuntura política mostra que a figura tradicional do trabalhador branco e militante é insuficiente para dar conta da realidade.
O feminismo, a luta antirracista e anticapitalista se entrecortam e interagem, e não devemos permitir o apagamento e a banalização dessas diferenças, o que só contribuiria para o neoliberalismo se apropriar cinicamente do ideal de “diversidade” enquanto mascara o caráter predatório do capital. Diante disso, o manifesto rejeita tanto o reducionismo de classe de esquerda como o neoliberalismo progressista, reivindicando um olhar mais amplo e diverso, que leva em conta as múltiplas lutas da maior parte da população, marginalizada e minorizada socialmente.
Poderia continuar essa lista por muitas linhas ainda pois, como pontuei, são muitas e muitas autoras e autores igualmente importantes não incluídos até aqui. Mas creio que a partir dessas autoras e obras podemos aprofundar e expandir nosso olhar e aprendizado. Conhecer o pensamento dessas e de outras autoras nos ajuda a guiar nossa melhor prática, questionar nossa sociedade e exercer, de maneira mais efetiva e precisa, nossa parte na mudança estrutural que tanto buscamos.

Livros citados neste texto:
A criação do patriarcado – Gerda Lerner (Editora Cultrix, 2019) original de 1986
Silvia federici – O Calibã e a bruxa (Editra Elefante, 2017) original de 2004
Angela Davis – Mulheres , Raça e Classe (São Paulo: Boitempo, 2016) original de 1981
Bell hooks – o feminismo é para todo mundo (Rosa dos Tempos; 14ª edição , 2018) original de 2000.
Lelia Gonzales – por um feminismo afro latino americano (Zahar, 2020)
Sueli Carneiro – Escritos de uma vida (Editora, Polen 2019)
Djamila ribeiro – quem tem medo do feminismo negro (Companhia das Letras, 2018)
Rebeca solnit – a mãe de todas as perguntas (Companhia das Letras, 2017)
Feminismo para os 99% – Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser (São Paulo: Boitempo, 2019)

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