Por um feminismo que não caia nas armadilhas do capitalismo

O feminismo teve uma crescente ascensão nas redes sociais. Nas mídias também ocupa discussões e espaços cada vez mais abrangentes e diversos. Também não é difícil encontrar estampas em roupas e itens valorizando frases que se aproximam às discussões de valorização das mulheres. Entretanto, o excesso de produtos, produções e legendas que buscam valorizar a mulher, demonstram que o capitalismo não perdoa. E aí, além da divulgação do feminismo, feito exaustivamente e por variadas áreas, temos também um ponto a nos preocupar. Como escreve bell hooks (2014): “O sexismo e o racismo, atuando juntos, perpetuam uma iconografia de representação da negra que imprime na consciência cultural coletiva a ideia que ela esta neste planeta principalmente para servir aos outros. Desde a escravidão até hoje (p. 467).

Esta preocupação se refere à veiculação de ideias no contexto da sociedade capitalista. Sociedade esta que tenta se apropriar dos elementos chave da pauta para focar no lucro. Isto conta, claro, com a exclusão da remuneração das trabalhadoras e, ainda, com a precarização das oportunidades de trabalho – geralmente feitas com um sorriso no rosto e com o dinheiro do próprio bolso. Então podemos refletir, como exemplos desta cultura e fortalecimento do mercado, segue em ascensão e isso se deve ao fato de cada vez mais contarmos com o trabalho de produção de conteúdo nas mídias sociais e na veiculação do rosto da mulher para vender mais um produto. Quem paga o preço de todo o trabalho por trás da produção de tanto conteúdo?

Se antes éramos contratadas para distribuir folders, flyers e propagandas para as lojas, hoje ocupamos os mecanismos de venda com nossas fotos, com nosso trabalho na arte, culinária, cursos, ideias… a precarização da mão de obra feminina ocupa cada vez mais espaço nas lojinhas do instagram. E é tão triste pensar que estes problemas se multiplicam em meio a uma pandemia assolada pelo vírus da desigualdade, conforme apontam os dados do Relatório da Oxfam 2021. E, na ideia de vender, promover ou enriquecer com a mão de obra feminina, pequenas e grandes empresas se esquecem de que pautas primordiais estão associadas ao tema do feminismo, como o pagamento e a valorização da mão de obra de mulheres, a inclusão das diferenças e de mulheres com deficiência, o respeito às trabalhadoras, entre outros aspectos. E quanto algum tipo de cobrança, ainda que simbólica é feita, por nós mesmas, as críticas são extensas e não perdoam quem está ali trocando conhecimento para pagar seu supermercado.

O capitalismo tem se apropriado das pautas feministas ao passo de desenvolver a lógica da concorrência e do aproveitamento de questões sociais para promoção de peças de produtos. E não é de hoje que o capitalismo tenta lucrar com o sangue de mulheres. Os conteúdos do nosso curso sobre Divisão Sexual do Trabalho, evidencia que esta lógica de lucrar com a força de trabalho da mulher é muito antiga e, mora aí, uma engrenagem principal que move o capitalismo. Por exemplo: não vemos planos de rendimento, de proteção ou de aposentadoria para pessoas que produzem nas mídias sociais.  Apenas o MEI e as promessas falaciosas do empreendedorismo feminino, palavra da moda que esconde mais um artifício da ideologia neoliberal que ausenta o estado de assumir a proteção ao trabalhador (CARMO, et. al, 2021).

Os algoritmos do Instagram demonstram a preocupação com mecanismos de venda e de veiculação da imagem da mulher para capitalizar. Outro aspecto que se intensifica é em como este jogo prioriza elementos da branquitude, com afastamento de mulheres negras, gordas ou com deficiência. Assim, veja que quem lucra sempre são os mesmos e a forma de monetizar o trabalho e a mão de obra feminina geralmente segue a lógica de valorização do patriarcado. O lucro nunca circula na mão de quem trabalha exaustivamente e faz tudo acontecer – as mulheres.

O capital segue com seus modos de opressão tripla com ameaças cotidianas à raça, gênero e classe em nosso continente. E, para refletir sobre isso, lembramos de Lélia Gonzáles, que analisou as questões relativas à mão de obra de mulheres negras. Em sua literatura a intelectual observou a necessidade de refletirmos sobre o acesso ao mercado de trabalho formal, a partir dos processos de escravização mundiais. Processos estes que reiteram práticas de subordinação, sexismo e racismo presentes nas relações de trabalho.

De tudo isso podemos analisar que, mais uma vez, quem fica power neste jogo são as grandes empresas que se apoderam de nossa mão de obra não remunerada. Esteja atenta à cultura capitalista que mascara velhas formas de encarar as questões sociais. O poder sempre esteve na mão de pessoas brancas e, geralmente homens. Precisamos compreender isto. Então, na oportunidade de refletir sobre este assunto, convidamos a pensarem nas estratégias de venda que tem adotado, no uso da imagem de mulheres feito pelo mercado e, também, observar no seu perfil de consumo como tem fortalecido outras mulheres. Lembramos que “só seremos livres se acabarmos com o capitalismo”  (MONTERO, 2020) e, para isso, ainda temos muito a conquistar. A começar por combater a cultura que se apossa de nossa força de trabalho exclusivamente para lucrar.

Por isso, ressaltamos a importância de que nossas bandeiras estejam alinhadas e, ao mesmo tempo, atentas às armadilhas do capital. Sabemos que os desafios são muitos, afinal, vivemos em um mundo cada vez mais catalisador da mão de obra barata. Por isso, afirmamos a necessidade de não banalizar o conceito do feminismo, tampouco fazer do lucro com a causa o principal meio educativo. Advogamos estratégias de libertação, na criação de conquistas na lei, na sociedade e na história. Afinal, derramar o sangue e suor todos os dias nos gera um preço. Estamos esgotadas e não vamos pagar mais esta conta.

 

Referências:

CARMO, Luana. OLIVEIRA, JÉSSICA, ASSIS, Lilian Bambirra de., JUNIOR, Admardo Bonifácio Gomes. O empreendedorismo como uma ideologia neoliberal. Cad. EBAPE.BR 19 (1) • Jan-Mar 2021. Disponível em: SciELO – Brasil – O empreendedorismo como uma ideologia neoliberal O empreendedorismo como uma ideologia neoliberal

MONTERO, Maria Júlia. Entrevista. Brasil de Fato. Março de 2020. Disponível em: “As mulheres só serão livres se acabarmos com o | Direitos Humanos (brasildefato.com.br)

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