E se eu escolhesse abortar?

 

Tô grávida. E eu não queria. Não agora.

Tomo pílula. Me previno. Céus! Como assim eu tô grávida? E foi assim que descobri que sim, é possível engravidar mesmo tomando anticoncepcional. Tive uma crise absurda de sinusite, tomei um monte de antibiótico. E agora?

Conversando com outras amigas, soube de alguns casos que até então eu diria “isso não existe”. Tem mulher que engravida usando DIU. É sério! Vejam o caso REAL aqui https://revistacrescer.globo.com

Tem mulher que engravida usando chip. Sim, tem sim. Você pode até dizer que é raro. Ok. De fato é. Mas cuidado…você pode ser a tal da estatística viu? Tem até gravidez, mesmo realizando laqueadura. Outro caso real, aqui: Mulher engravida de gêmeos mesmo depois de fazer a laqueadura. Maravilhosa, família linda, feliz por ela. Mas não quero pra mim.

Fato é. Não quero ser mãe.

Não agora. Talvez nem depois. Mas hoje, não. Não quero mesmo.

Quero abortar.

Nossa, mas é uma vida! Você não gosta de criança?

Primeiro, tem a MINHA vida. Segundo, sim, eu gosto de criança. Tenho muito carinho por meus sobrinhos, filhos de amigos. Viro a tia que brinca, faz piada, curte junto e dá bronca quando precisa. Mas mesmo assim, não quero essa vida pra mim.

Ou aborto agora, que descobri, estou com 6 semanas… Ou aborto minha vida. Meus sonhos.

Minha carreira.

Tudo o que construí até aqui.

Não cabe uma criança, não agora.

Eu já me sinto culpada o suficiente antes que você venha com seu discurso de pró vida, pró isso, pró aquilo. A minha vida também importa.

Estou numa fase de muita energia, pouco tempo ocioso….lutando para conseguir me estabelecer na área que escolhi para trabalhar. Não quero abrir mão disso agora. Aliás, é exatamente por isso que eu sempre me cuidei. Fiquei doente. Não programei isso. Fiquei doente. Tomei os remédios que o médico receitou, fiz tudo como manda o figurino.

Agora o que resta é?

Ok. Decisão tomada.

Como vou abortar?

“No artigo 128 do Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940 está claro que aborto é considerado legal quando a gravidez é resultado de abuso sexual ou põe em risco a saúde da mulher. Além disso, em 2012, um julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu que é permitido interromper a gestação quando se nota que o feto é anencéfalo, ou seja, não possui cérebro.” (https://www.brasildefato.com.br/2020/08/17/saiba-em-quais-casos-o-aborto-e-um-direito-garantido-no-brasil). Me disseram que eu não me encaixo em nenhuma das possibilidades. De fato não sofri um estupro, o feto tem cérebro. Mas qual a interpretação de “põe em risco a saúde da mulher”. A minha saúde mental não entra nisso aí não? A minha decisão também não?

E agora?

Estou correndo contra o relógio.

É óbvio que eu sei que com o avançar da gestação, ficará cada vez mais difícil o procedimento do aborto.

Se a gente pesquisar, dá até medo.

“Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), um total de 73,3 milhões de abortos seguros e inseguros ocorreram no mundo anualmente entre 2015 e 2019. Na África e na América Latina, três em cada quatro abortos são feitos de forma insegura, revelando que o problema é ainda mais grave no Sul Global (países em desenvolvimento e subdesenvolvidos). Ainda de acordo com a OMS, a criminalização do aborto custa caro, tanto em termos financeiros como em relação à vida das mulheres. Anualmente, cerca de 7 milhões de mulheres são recebidas em hospitais devido a complicações causadas pelo aborto inseguro nos países em desenvolvimento.”

Aqui no Brasil, uma em cada cinco mulheres de até 40 anos já abortou. (UMA A CADA CINCO). São dados oriundos da Pesquisa Nacional do Aborto de 2016, realizada pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (ANIS). O estudo também mostrou que cerca de 503 mil mulheres entre 18 e 40 anos realizaram abortos em 2015 Uma em cada cinco. Isso quer dizer que provavelmente sua mãe, ou sua tia, ou sua amiga, ou aquela moça que você sempre encontra na sala de aula, ou na farmácia, ou na lanchonete, ou simplesmente… esbarrou na rua.

O DataSUS não possui um levantamento sobre abortos clandestinos no Brasil. Porém,  é possível ter uma pequena amostragem com o número de mulheres atendidas em todo o país pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em razão de abortos malsucedidos – tenham sido provocados ou espontâneos.

Você sabia que no primeiro semestre de 2020, a cada 80 abortos realizados no Brasil, apenas um foi feito dentro da lei? (segundo estimativa dos dados do DataSUS). Consta no DataSUS que foram 1.024 procedimentos legais contra 80.948 curetagens e aspirações – processos necessários para limpeza do útero após um aborto incompleto realizado de forma clandestina.

Sem falar naquelas mulheres que simplesmente morreram nas “clinicas”. Essas mulheres, a sociedade nem se importa com elas. Afinal, “somos pró vida”. Tem vários casos reais, vejam um aqui.

Pode parecer estúpido.

Pode soar como você bem entender.

Eu não quero prosseguir com esta gestação. Não vou abortar os meus sonhos. E sei que vou viver com essa culpa e duplicidade de sentimentos com a decisão que eu tomei, com as percepções que tenho agora.

Tive muito medo de procurar uma “clínica” clandestina. Fui em uma sim. Mas o cenário é surreal.

Pesquisei. Talvez nem tanto, porque o tempo não é o parceiro ideal agora.

Fiz um empréstimo no banco.

Estou indo para a Colômbia. E vou fazer o procedimento de aborto em alguns dias.

Na Colômbia, o aborto é permitido quando há risco a saúde física ou mental da mãe. Conseguirei realizar o procedimento atestando que há risco de depressão, considerando a possibilidade de evolução do quadro de depressão atual, para moderado ou grave; considerando os riscos de depressão pós-parto ou psicose puerperal uma vez que a gravidez não é desejada. Enfim. Estou embarcando com os documentos necessários, um rombo enorme na minha vida (com o empréstimo que fiz no banco, parcelado em 72x), com a cabeça em desalinho, o coração apertado…mas confiante de que não abortarei os meus sonhos.

Não quero parir uma criança para que ela seja marcada pela rejeição materna. Sofrendo todos os prejuízos emocionais que uma situação assim, leva consigo. Não tenho estabilidade emocional para ser mãe agora. Não tenho uma casa. Não teria com quem deixar a criança.

Me desculpe se ofende você. Mas essa foi a minha decisão. Foi a opção que eu tive para o MEU momento. E me reservo o direito de pensar, decidir por mim.

Foi o que eu consegui fazer diante deste turbilhão.

São muitas indagações. Muitas histórias que terminaram de formas mais adversas possíveis.

Paira no ar: existe uma saída? A OMS afirma que “quase todas as mortes e incapacidades por aborto poderiam ser evitadas por meio de educação sexual, uso de anticoncepcionais eficazes, fornecimento de aborto induzido seguro e legal e atendimento oportuno a complicações”

Espero que um dia, as mulheres consigam de fato ter direito sobre o próprio corpo, as suas escolhas.

Sei que ainda que seja absurdo, eu sou sim privilegiada. Pois consegui um local seguro para realizar o procedimento.

Infelizmente, várias tantas outras, não.

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